A economia brasileira segue resiliente, mas o cenário ficou mais difícil: inflação revisada para cima, expectativas se deteriorando e um novo choque externo vindo do conflito no Oriente Médio.
A economia mantém a resiliência do primeiro semestre, mas o cenário ficou mais desafiador — inflação acima do teto da meta, expectativas desancoradas e um choque de petróleo que volta a pressionar preços.
EUA e Irã fecharam um acordo para reabrir o Estreito de Hormuz e estender o cessar-fogo, encerrando a fase mais aguda da guerra. O petróleo recuou para US$ 82,84 e as bolsas globais subiram — um alívio importante, ainda que as pressões de inflação já acumuladas permaneçam. Veja a seção A guerra do Oriente Médio.
O prolongamento do conflito manteve o petróleo em patamar elevado, pressionando custos e alimentando incerteza. Brent no cenário-base: US$ 85/barril.
A demanda privada puxa a recuperação. Revisamos o PIB de 2026 para 2,0% — mas 2027 caiu para 1,1% pelo peso dos juros altos.
Alimentos, combustíveis, serviços e bens industriais pressionam ao mesmo tempo. Expectativas seguem se deteriorando. Risco para cima.
Iniciada em 28 de fevereiro, a guerra entre EUA/Israel e Irã durou mais de 100 dias, fechou o Estreito de Hormuz e provocou um choque global de energia. Em 14 de junho, as partes chegaram a um acordo para reabrir o Estreito e estender o cessar-fogo.
EUA e Irã chegaram a consenso para reabrir o Estreito de Hormuz e estender o cessar-fogo, com assinatura prevista para sexta-feira, na Suíça. O Estreito será reaberto gradualmente em 30 dias, os EUA suspendem o bloqueio naval aos portos iranianos e o Irã reafirma que não buscará armas nucleares. A reação foi imediata: o Brent caiu mais de 5%, para US$ 82,84, e as bolsas globais subiram.
O Estreito de Hormuz — por onde passa boa parte do petróleo mundial — ficou praticamente fechado: de cerca de 100 navios/dia para apenas 127 em três semanas. A Ásia, que importa ~60% do petróleo do Oriente Médio, foi a mais atingida, com 15 países buscando empréstimos de emergência. O Banco Mundial cortou a previsão de crescimento global de 2,9% para 2,5% em 2026.
O conflito prolongado no Oriente Médio e as tarifas americanas são os principais vetores de incerteza. EUA crescem menos, o BCE afrouxou a política monetária e a China mantém estímulos para compensar a fraqueza externa.
Em 14 de junho, EUA e Irã fecharam acordo para reabrir o Estreito de Hormuz e estender o cessar-fogo. O Brent recuou para US$ 82,84 — alívio que confirma o cenário-base de resolução no 2º semestre, embora as pressões de inflação já acumuladas permaneçam.
O câmbio se estabilizou após o estresse do fim de 2025. O superávit comercial segue robusto, impulsionado pelo agronegócio e pelo petróleo — cuja produção atingiu recorde histórico.
A produção de 4,3 milhões de barris/dia em abril é um novo recorde. Com o petróleo acima de US$ 80, a receita de exportações em 2026 supera US$ 53 bilhões — patamar que praticamente financia todo o custo das subvenções a combustíveis.
O quadro fiscal segue desafiador. Déficit nominal perto de 9% do PIB, dívida em trajetória de alta e um pacote parafiscal de R$ 277 bilhões sustentando a atividade — mas ao custo de mais pressão inflacionária e dívida crescente.
O impulso fiscal mais que compensou o aperto monetário neste primeiro semestre — mas o custo virá na forma de dívida crescente e inflação mais persistente.
| Programa | ∆ R$ bi | % PIB |
|---|---|---|
| Medidas implementadas | 139,4 | 1,0% |
| Isenção IRPF | 31,0 | 0,2% |
| Move Brasil 1 e 2 | 29,7 | 0,2% |
| Consignado Privado | 24,0 | 0,2% |
| Crédito Imobiliário | 22,3 | 0,2% |
| Desenrola 2.0 + FGTS | 16,1 | 0,1% |
Custo primário de R$ 44 bilhões (até R$ 65 bi conforme a adesão). A receita do choque de petróleo — R$ 53 bi — compensa o custo das subvenções por enquanto.
O primeiro trimestre surpreendeu. O PIB cresceu 1,1% na margem, puxado por consumo e investimento. O mercado de trabalho vive seu melhor momento em décadas — mas o crédito preocupa.
O cenário inflacionário se deteriorou ainda mais. O IPCA foi revisado para 5,3% em 2026 — acima do teto da meta. Quatro fontes de pressão simultâneas: alimentos, combustíveis, serviços e bens industriais. Riscos para cima.
O Copom enfrenta sua decisão mais difícil do ciclo. A comunicação ainda aponta um último corte em junho, mas os fundamentos pedem pausa. O BTG projeta Selic em 14,25% até o fim de 2026, com retomada dos cortes apenas em 2027.
A comunicação sinaliza continuidade dos cortes, mas os dados não permitem: inflação surpreende para cima, atividade não arrefece e expectativas se deterioram até 2028. A decisão mais prudente seria pausar já em junho — mas o cenário-base mantém um último corte de 25pb pelo compromisso de comunicação acumulado.
Com choques sobrepostos e expectativas desancoradas, separar inflação temporária de persistência fica muito mais difícil — e a assimetria dos riscos aumenta.
Por mais de 20 anos, as gigantes de tecnologia foram "máquinas de imprimir dinheiro". Agora, para financiar a corrida da inteligência artificial, elas precisam captar dinheiro — uma mudança de regime que pode redefinir o mercado quando a confiança oscilar.
"Seja o que for que a IA faça por nós, seu efeito sobre o mercado será profundo. Estamos vendo uma era antiga morrer e uma nova nascer."
As Big Tech viraram "hiperescaladoras" de IA: o investimento em data centers deve crescer 6x até 2027, derrubando o fluxo de caixa livre em 70%. E a maior compradora das próprias ações — as empresas — passou a emitir mais do que recompra.
A recompra de ações sustentou as bolsas por uma década. Com a IA, esse fluxo se inverte: SpaceX, Alphabet, Meta, OpenAI e Anthropic podem captar US$ 400 bi só em 2026. O gasto com IA já é ~7% do PIB americano — escala parecida com a do boom imobiliário de 2007.
Booms de investimento deixam legados úteis, mas em suas fases finais trazem excesso de confiança e exageros. Se a corrida da IA continuar se expandindo, o ajuste pode ser difícil — no estilo de 2001 ou 2008. Vale acompanhar de perto.